Aqui você poderá encontrar artigos, poesias, fotos, videos (...) sobre a mulher guerreira. Principalmente sobre a mulher negra, guerreira, lutadora e vencedora. Toda mulher só é mulher, por que é guerreira desde o nascimento. Tem que ter competência prá ser mulher. Conseguimos ser profissional, mãe, dona-de-casa, amiga, esposa, namorada, lindas, maravilhosas e poderosas. E tudo de salto alto ainda.
sábado, 31 de julho de 2010
terça-feira, 28 de julho de 2009
MULHER
No princípio eu era a Eva
Criada para a felicidade de Adão
Mais tarde fui Maria
Dando à luz aqueleQue traria a salvação
Mas isso não bastaria
Para eu encontrar perdão.
Passei a ser Amélia
A mulher de verdade
Para a sociedade
Não tinha a menor vaidade
Mas sonhava com a igualdade.
Muito tempo depois decidi:
Não dá mais!
Quero minha dignidade
Tenho meus ideais!
Hoje não sou só esposa ou filha
Sou pai, mãe, arrimo de família
Sou caminhoneira, taxista,
Piloto de avião, policial feminina,
Operária em construção...Ao mundo peço licença
Para atuar onde quiser
Meu sobrenome é COMPETÊNCIA
E meu nome é MULHER..!!!
Criada para a felicidade de Adão
Mais tarde fui Maria
Dando à luz aqueleQue traria a salvação
Mas isso não bastaria
Para eu encontrar perdão.
Passei a ser Amélia
A mulher de verdade
Para a sociedade
Não tinha a menor vaidade
Mas sonhava com a igualdade.
Muito tempo depois decidi:
Não dá mais!
Quero minha dignidade
Tenho meus ideais!
Hoje não sou só esposa ou filha
Sou pai, mãe, arrimo de família
Sou caminhoneira, taxista,
Piloto de avião, policial feminina,
Operária em construção...Ao mundo peço licença
Para atuar onde quiser
Meu sobrenome é COMPETÊNCIA
E meu nome é MULHER..!!!
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Elas por elas- Carolina Maria de Jesus e Clarice Lispector
“Minha liberdade é escrever. A palavra é o meu domínio sobre o mundo.” Clarice Lispector
“Não tenho força física, mas as minhas palavras ferem mais do que espada. E as feridas são incicatrizáveis” Carolina Maria de Jesus
Neste ano de 2007 completam-se trinta anos da morte de dois dos mais expressivos nomes femininos da literatura brasileira, Clarice Lispector (1920-1977) e Carolina Maria de Jesus (1914-1977). Essas duas mulheres representam, cada uma a seu modo, um grito de protesto contra as injustiças da sociedade brasileira e ambas contribuíram com seus escritos para a reflexão do papel da mulher ao longo do século XX. Embora tivessem um meio de expressão comum, a arte literária, percorreram trajetórias totalmente opostas e chegaram a literatura por caminhos diversos, levando-as inexoravelmente a ocupar papel ativo e questionador do comportamento feminino, sua condição condição histórica e seu papel na sociedade brasileira da segunda metade século passado.
Clarice Lispector nasceu em Tchetchelnik na Ucrânia, nas palavras dela “uma cidade tão pequena que nem figura no mapa”, em 10 de dezembro de 1920, num momento em que seus pais, judeus, se preparavam para imigrar para o Brasil, fugindo da perseguição anti-semita e da Revolução Bolchevique de 1917. Clarice chegou em terras brasileiras com dois meses de idade, juntamente com a família, estabelecendo-se primeiramente em Maceió(AL) e mais tarde em Recife(PE). Em 1943, aos 23 anos, casou-se com o diplomata Maury Gurgel Valente, passando a residir em vários países, até retornar ao Brasil em 1959.
Carolina Maria de Jesus nasceu em 14 de março de 1914, também em uma pequena cidade, Sacramento, uma então provinciana localidade do interior de Minas Gerais. Em Sacramento Carolina conheceu a humilhação, a discriminação e a falta de recursos que a impossibilitaram de integrar-se minimamente na sociedade extremamente elitista daquela época, devido a sua condição de neta de escravos, negra e pobre. Carolina passou a infância e adolescência perambulando pelas cidades do interior de Minas e São Paulo, procurando encontrar melhores formas de manter a vida. Em 1937, aos 23 anos, vivendo em Franca-SP, perdeu a mãe, único vínculo que a mantinha ainda ligada a região, e resolveu partir para capital do estado em busca de melhores chances de sobrevivência. Entre empregos informais e trabalhos domésticos, a futura escritora, sonhava com o mundo das letras. Mais tarde, morando na favela e vivendo da coleta de papéis, Carolina escrevia constantemente, em folhas encontradas no lixo.
O reconhecimento viria mesmo quase que por acaso, quando em 1958, o repórter do jornal “Folha da Noite”, Audálio Dantas é designado para fazer uma matéria sobre a favela do Canindé. Entre os barracos da favela, o jornalista se depara com a intelectualidade de Carolina no meio daquela miséria, e ela mostra seus textos a ele. É seu diário, escrito desordenadamente, em folhas soltas, em cadernos velhos, relatando a dura realidade em que vivia Carolina e os outros favelados do Canindé. O jovem repórter fica maravilhado com a leitura. No dia 19 de maio de 1958, o jornal publica parte do texto, sendo elogiado. Em 1959, Audálio Dantas já trabalhando na grande revista da época – O Cruzeiro, publica trechos do Diário, mas somente em 1960, com uma tiragem inicial de 10 mil exemplares é publicada a obra: “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”. Na noite de autógrafos, são vendidos 600 exemplares, no fim do ano as vendas somavam 100 mil cópias. “Quarto de Despejo” seria republicado em pelo menos 13 línguas em mais de 40 países, incluindo a então União Soviética e o Japão. Sua projeção foi vertiginosa, e conforme explica José Carlos Sebe Bom Meihy, “Jamais outro livro publicado no Brasil com testemunhos de mulheres alcançou níveis equiparáveis ao de Carolina”. Segundo Meihy “Quarto de Despejo”, até 1998, teria “Um milhão de cópias vendidas em todo mundo, sendo inclusive o texto brasileiro mais publicado de todos os tempos”.
Clarice Lispector era formada em Direito, estudou latim, viveu em Nápoles, Washington, Berna, traduziu obras para o português, atuou como repórter e jornalista. Era dona de uma prosa densa, rebuscada, rica em inovações sintáticas e recursos lingüísticos. Em 1944 publicou o primeiro de seus vários romances: "Perto do Coração Selvagem". Clarice surpreendeu a crítica, quer pela problemática e caráter existencial, completamente inovadora, quer pelo estilo singular, fragmentário, revolucionário. Autora de quase vinte obras, se consagraria principalmente com "A Paixão segundo GH” (1964), o "Lustre” (1946) e "A Hora da Estrela” (1975). Pela densidade de sua narrativa, e o profundo perfil psicológico de seus personagens, tem sido comparada a Kafka e junto com Guimarães Rosa, constitui um capítulo especial na história da Literatura Brasileira.
Carolina estudou até o segundo ano primário, as viagens que fez foi peregrinando pelo interior de Minas Gerais e São Paulo, em busca de emprego e melhores perspectivas de vida. Sua escrita é simples, no estilo mais básico e direto: - o diário, por vezes contendo erros de gramática e ortografia, sem contudo, jamais perder a riqueza dos pensamentos bem elaborados.
Mas em ambas escritoras é latente o talento literário nato, a narrativa envolvente e a visão literária como algo predestinado, capaz de guiar suas próprias vidas.
Depois de seu sucesso estrondoso, e em virtude de sua inadequação ao estilo de vida que se esperava que seguisse ao alçançar o sucesso, e por seu temperamento independente, contestador e original, Carolina sentiu-se usada, expôs-se muito, foi consumida e descartada. Passou a ser vista como uma figura incômoda para a elite brasileira, porque revelava sem disfarces os preconceitos e a injustiça social reinante no país. Por isso foi relegada ao segundo plano das letras nacionais. “Ser negra num mundo dominado por brancos, ser mulher num espaço regido por homens, não conseguir fixar-se como pessoa de posses num território em que administrar o dinheiro é mais difícil do que ganhá-lo, publicar livros num ambiente intelectual de modelo refinado, tudo isso reunido fez da experiência de Carolina um turbilhão”, são as impressões de Meihy acerca desse período.
Clarice Lispector também lançou uma voz de protesto dirigida a uma elite que se auto-sufocava, de mulheres ainda não libertadas do conservadorismo que impregnava a sociedade brasileira do início do século XX. Refletiu a difícil situação da mulher brasileira, seja o enclausuramento das senhoras burguesas, em “A Paixão Segundo GH”, seja a opressão e falta de horizontes dos emigrantes nordestinos, achatados pela grande cidade, em “A Hora da Estrela”.
Carolina bradava em favor dos desvalidos, dos favelados, daqueles que não tiveram a oportunidade nem a “regalia” de sofrerem com problemas existenciais.
Mas ambas “se encontraram no sentido mais profundo do seu trabalho. Ambas viram e documentaram o sofrimento das pessoas, especialmente o sofrimento da mulher”. como muito bem observou a profa. Eva Paulino Bueno, da St. Mary’s University, do Estado do Texas, nos EUA.
As vozes de Clarice e Carolina repercutiram além dos limites nacionais, com suas obras publicadas no exterior, foram e continuam sendo alvo de teses e estudos acadêmicos em vários países, mas principalmente nos Estados Unidos, visando desvendar os mistérios de suas produções literárias e avaliar a contribuiçao intelectual e social como mulheres, brasileiras e escritoras.
Clarice, talvez por sua trajetoria mais “elitizada” consagrou-se como figura inconteste da literatura brasileira, e tem sido motivo das mais diversas homenagens e reverências ao longo dos últimos trinta anos.
O nome de Carolina, pelo contrário, enfrentou grande resistência de aceitação por uma elite intelectual que se recusava em ver em uma negra favelada o raro talento para a literatura “Ao contrário de suas pares (Nélida Pinon, Clarice Lispector, Henriqueta Lisboa), que só cresceram, a carreria de Carolina obedeceu o caminho do declínio (..) O avesso dessa questão sugere a crueldade da elite nacional que, através da redefinição constante do chamado código culto, elide uma participante que, apesar de sua obra extensa e original, deixa de ser considerada”. (JCSBM)
Mas embora se tentasse “apagar” sua imagem nas primeiras duas décadas depois de sua morte, Carolina vem experimentando nos últimos anos uma retomada na discussão de sua obra, sendo alvo de estudos consistentes, principalmente no exterior. Em 2005 o Governo do Estado de São Paulo inaugurou, junto ao “Museu Afro Brasil”, no Parque do Ibirapuera, uma biblioteca que leva o nome da escritora. Em 2003 o Diretor Jefferson De produziu o curta-metragem “Carolina”, protagonizado pela atriz Zezé Mota e premiado como vencedor do Festival de Gramado daquele ano. Teses de Doutorado foram produzidas tendo como tema a vida e obra da escritora, especialmente a partir do ano 2000. “Quarto de Despejo” foi selecionado para os vestibulares da UFMG em 2000 e UNB em 2004. Em 2007 a Editora Bertolucci, da terra natal da escritora, reedita “Diário de Bitita”, obra originalmente publicada na França(1982) e no Brasil (1986) em edição da Nova Fronteira, há muito esgotada.
Mas embora essas ações sejam positivas, e tenham contribuido para consolidar a vertente de retomada do nome da escritora, é evidente que ainda há que se percorrer um longo caminho até que Carolina Maria de Jesus seja devidamente respeitada e aceita pela sua singular importância, como uma das escritoras mais originais que o Brasil conheceu.
"Manuel apareceu dizendo que queria casar-se comigo. Mas eu não queria porque já estou na maturidade. E depois, um homem não há de gostar de uma mulher que não pode passar sem ler. E levanta para escrever. E que deita com o lápis e papel debaixo do travesseiro". Carolina Maria de Jesus"
"Nasci para escrever. Cada livro meu é uma estréia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que chamo de viver e escrever.” Clarice Lispector
Autor: Alessandro Abdala
Artigo originalmente publicado na Revista Destaque IN, nº74
“Não tenho força física, mas as minhas palavras ferem mais do que espada. E as feridas são incicatrizáveis” Carolina Maria de Jesus
Neste ano de 2007 completam-se trinta anos da morte de dois dos mais expressivos nomes femininos da literatura brasileira, Clarice Lispector (1920-1977) e Carolina Maria de Jesus (1914-1977). Essas duas mulheres representam, cada uma a seu modo, um grito de protesto contra as injustiças da sociedade brasileira e ambas contribuíram com seus escritos para a reflexão do papel da mulher ao longo do século XX. Embora tivessem um meio de expressão comum, a arte literária, percorreram trajetórias totalmente opostas e chegaram a literatura por caminhos diversos, levando-as inexoravelmente a ocupar papel ativo e questionador do comportamento feminino, sua condição condição histórica e seu papel na sociedade brasileira da segunda metade século passado.
Clarice Lispector nasceu em Tchetchelnik na Ucrânia, nas palavras dela “uma cidade tão pequena que nem figura no mapa”, em 10 de dezembro de 1920, num momento em que seus pais, judeus, se preparavam para imigrar para o Brasil, fugindo da perseguição anti-semita e da Revolução Bolchevique de 1917. Clarice chegou em terras brasileiras com dois meses de idade, juntamente com a família, estabelecendo-se primeiramente em Maceió(AL) e mais tarde em Recife(PE). Em 1943, aos 23 anos, casou-se com o diplomata Maury Gurgel Valente, passando a residir em vários países, até retornar ao Brasil em 1959.
Carolina Maria de Jesus nasceu em 14 de março de 1914, também em uma pequena cidade, Sacramento, uma então provinciana localidade do interior de Minas Gerais. Em Sacramento Carolina conheceu a humilhação, a discriminação e a falta de recursos que a impossibilitaram de integrar-se minimamente na sociedade extremamente elitista daquela época, devido a sua condição de neta de escravos, negra e pobre. Carolina passou a infância e adolescência perambulando pelas cidades do interior de Minas e São Paulo, procurando encontrar melhores formas de manter a vida. Em 1937, aos 23 anos, vivendo em Franca-SP, perdeu a mãe, único vínculo que a mantinha ainda ligada a região, e resolveu partir para capital do estado em busca de melhores chances de sobrevivência. Entre empregos informais e trabalhos domésticos, a futura escritora, sonhava com o mundo das letras. Mais tarde, morando na favela e vivendo da coleta de papéis, Carolina escrevia constantemente, em folhas encontradas no lixo.
O reconhecimento viria mesmo quase que por acaso, quando em 1958, o repórter do jornal “Folha da Noite”, Audálio Dantas é designado para fazer uma matéria sobre a favela do Canindé. Entre os barracos da favela, o jornalista se depara com a intelectualidade de Carolina no meio daquela miséria, e ela mostra seus textos a ele. É seu diário, escrito desordenadamente, em folhas soltas, em cadernos velhos, relatando a dura realidade em que vivia Carolina e os outros favelados do Canindé. O jovem repórter fica maravilhado com a leitura. No dia 19 de maio de 1958, o jornal publica parte do texto, sendo elogiado. Em 1959, Audálio Dantas já trabalhando na grande revista da época – O Cruzeiro, publica trechos do Diário, mas somente em 1960, com uma tiragem inicial de 10 mil exemplares é publicada a obra: “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”. Na noite de autógrafos, são vendidos 600 exemplares, no fim do ano as vendas somavam 100 mil cópias. “Quarto de Despejo” seria republicado em pelo menos 13 línguas em mais de 40 países, incluindo a então União Soviética e o Japão. Sua projeção foi vertiginosa, e conforme explica José Carlos Sebe Bom Meihy, “Jamais outro livro publicado no Brasil com testemunhos de mulheres alcançou níveis equiparáveis ao de Carolina”. Segundo Meihy “Quarto de Despejo”, até 1998, teria “Um milhão de cópias vendidas em todo mundo, sendo inclusive o texto brasileiro mais publicado de todos os tempos”.
Clarice Lispector era formada em Direito, estudou latim, viveu em Nápoles, Washington, Berna, traduziu obras para o português, atuou como repórter e jornalista. Era dona de uma prosa densa, rebuscada, rica em inovações sintáticas e recursos lingüísticos. Em 1944 publicou o primeiro de seus vários romances: "Perto do Coração Selvagem". Clarice surpreendeu a crítica, quer pela problemática e caráter existencial, completamente inovadora, quer pelo estilo singular, fragmentário, revolucionário. Autora de quase vinte obras, se consagraria principalmente com "A Paixão segundo GH” (1964), o "Lustre” (1946) e "A Hora da Estrela” (1975). Pela densidade de sua narrativa, e o profundo perfil psicológico de seus personagens, tem sido comparada a Kafka e junto com Guimarães Rosa, constitui um capítulo especial na história da Literatura Brasileira.
Carolina estudou até o segundo ano primário, as viagens que fez foi peregrinando pelo interior de Minas Gerais e São Paulo, em busca de emprego e melhores perspectivas de vida. Sua escrita é simples, no estilo mais básico e direto: - o diário, por vezes contendo erros de gramática e ortografia, sem contudo, jamais perder a riqueza dos pensamentos bem elaborados.
Mas em ambas escritoras é latente o talento literário nato, a narrativa envolvente e a visão literária como algo predestinado, capaz de guiar suas próprias vidas.
Depois de seu sucesso estrondoso, e em virtude de sua inadequação ao estilo de vida que se esperava que seguisse ao alçançar o sucesso, e por seu temperamento independente, contestador e original, Carolina sentiu-se usada, expôs-se muito, foi consumida e descartada. Passou a ser vista como uma figura incômoda para a elite brasileira, porque revelava sem disfarces os preconceitos e a injustiça social reinante no país. Por isso foi relegada ao segundo plano das letras nacionais. “Ser negra num mundo dominado por brancos, ser mulher num espaço regido por homens, não conseguir fixar-se como pessoa de posses num território em que administrar o dinheiro é mais difícil do que ganhá-lo, publicar livros num ambiente intelectual de modelo refinado, tudo isso reunido fez da experiência de Carolina um turbilhão”, são as impressões de Meihy acerca desse período.
Clarice Lispector também lançou uma voz de protesto dirigida a uma elite que se auto-sufocava, de mulheres ainda não libertadas do conservadorismo que impregnava a sociedade brasileira do início do século XX. Refletiu a difícil situação da mulher brasileira, seja o enclausuramento das senhoras burguesas, em “A Paixão Segundo GH”, seja a opressão e falta de horizontes dos emigrantes nordestinos, achatados pela grande cidade, em “A Hora da Estrela”.
Carolina bradava em favor dos desvalidos, dos favelados, daqueles que não tiveram a oportunidade nem a “regalia” de sofrerem com problemas existenciais.
Mas ambas “se encontraram no sentido mais profundo do seu trabalho. Ambas viram e documentaram o sofrimento das pessoas, especialmente o sofrimento da mulher”. como muito bem observou a profa. Eva Paulino Bueno, da St. Mary’s University, do Estado do Texas, nos EUA.
As vozes de Clarice e Carolina repercutiram além dos limites nacionais, com suas obras publicadas no exterior, foram e continuam sendo alvo de teses e estudos acadêmicos em vários países, mas principalmente nos Estados Unidos, visando desvendar os mistérios de suas produções literárias e avaliar a contribuiçao intelectual e social como mulheres, brasileiras e escritoras.
Clarice, talvez por sua trajetoria mais “elitizada” consagrou-se como figura inconteste da literatura brasileira, e tem sido motivo das mais diversas homenagens e reverências ao longo dos últimos trinta anos.
O nome de Carolina, pelo contrário, enfrentou grande resistência de aceitação por uma elite intelectual que se recusava em ver em uma negra favelada o raro talento para a literatura “Ao contrário de suas pares (Nélida Pinon, Clarice Lispector, Henriqueta Lisboa), que só cresceram, a carreria de Carolina obedeceu o caminho do declínio (..) O avesso dessa questão sugere a crueldade da elite nacional que, através da redefinição constante do chamado código culto, elide uma participante que, apesar de sua obra extensa e original, deixa de ser considerada”. (JCSBM)
Mas embora se tentasse “apagar” sua imagem nas primeiras duas décadas depois de sua morte, Carolina vem experimentando nos últimos anos uma retomada na discussão de sua obra, sendo alvo de estudos consistentes, principalmente no exterior. Em 2005 o Governo do Estado de São Paulo inaugurou, junto ao “Museu Afro Brasil”, no Parque do Ibirapuera, uma biblioteca que leva o nome da escritora. Em 2003 o Diretor Jefferson De produziu o curta-metragem “Carolina”, protagonizado pela atriz Zezé Mota e premiado como vencedor do Festival de Gramado daquele ano. Teses de Doutorado foram produzidas tendo como tema a vida e obra da escritora, especialmente a partir do ano 2000. “Quarto de Despejo” foi selecionado para os vestibulares da UFMG em 2000 e UNB em 2004. Em 2007 a Editora Bertolucci, da terra natal da escritora, reedita “Diário de Bitita”, obra originalmente publicada na França(1982) e no Brasil (1986) em edição da Nova Fronteira, há muito esgotada.
Mas embora essas ações sejam positivas, e tenham contribuido para consolidar a vertente de retomada do nome da escritora, é evidente que ainda há que se percorrer um longo caminho até que Carolina Maria de Jesus seja devidamente respeitada e aceita pela sua singular importância, como uma das escritoras mais originais que o Brasil conheceu.
"Manuel apareceu dizendo que queria casar-se comigo. Mas eu não queria porque já estou na maturidade. E depois, um homem não há de gostar de uma mulher que não pode passar sem ler. E levanta para escrever. E que deita com o lápis e papel debaixo do travesseiro". Carolina Maria de Jesus"
"Nasci para escrever. Cada livro meu é uma estréia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que chamo de viver e escrever.” Clarice Lispector
Autor: Alessandro Abdala
Artigo originalmente publicado na Revista Destaque IN, nº74
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Rainha Nzinga Mbandi
Filha de Nzinga a Mbande Ngola Kiluaje e Guenguela Cakombe Controversa líder feminina homenageada em Angola e no Brasil. Misto de libertadora com uma grande negociadora de escravos. Inteligente e cruel ao mesmo tempo. É difícil fazer um julgamento de seu caráter a tanta distancia cronológica.A Historia de Nzinga começa com a ocupação portuguesa, em 1578, quando Paulo Dias de Novais funda a cidade fortificada de São Paulo de Assumpção de Luanda que se tornará a futura capital de Angola em território mbundu. O rei dos mbundu era Ngola Kiluanji, pai de Nzinga, resistiu por muitos anos à invasão de seu território. Ngola Kiluanji resiste à ocupação portuguesa. No entanto, uma parte do território é tomada, constituindo o primeiro espaço colonial na região. O rei Kiluanji refugia-se em Cabassa, no interior de Matamba, e consegue reter o avanço dos portugueses. Após a morte de Kiluanji sucede seu filho Kia Ngola Mbandi, meio irmão de Nzinga, que, inicialmente, também impediu o avanço do comércio escravagista para o interior. Uma das primeiras medidas de Kia Mbamdi foi matar o filho único de Nzinga, concorrente em potencial.Ela também teve de aturar forte oposição interna por ser mulher e ter como mãe uma escrava – mancha grave em sua ficha, já que todo o poder, no reino, se baseava nas relações de parentesco. Nzinga fora criada pelo pai, o rei Jinga Mbandi, para ser uma rainha guerreira. Diplomata hábil, auxiliou seu irmão, mesmo rancorosa com o ato de assassinato de seu filho, negociando a devolução de territórios já ocupados pelos invasores. Recebida em Luanda com grande pompa pelo governador geral ela negocia sem ceder algum território e pede a devolução de territórios que obtém pela sua conversão política ao cristianismo, recebendo o nome de Dona Anna de Sousa. Mais tarde suas irmãs Cambi e Fungi também se convertem, passando a se chamar Dona Bárbara e Dona Garcia respectivamente.Entretanto os portugueses ficam impacientes, e no desejo de estabelecerem o comércio com o jaga de Cassanje no interior, não respeitam o tratado de paz. A rebelião de alguns sobas (chefes), que se aliam ao jaga de Cassange e aos portugueses, cria uma situação de desordem no reino de Ngola.Depois de saber da quebra do tratado, ela perguntou ao seu irmão para interceder e lutar contra a invasão portuguesa. Nzinga assume o comando da situação e ao encontrar um dos sobas, seu tio, que se dirigia a Luanda para se submeter aos portugueses, manda decapitá-lo, e dando conta da hesitação de seu irmão manda envenená-lo abrindo assim caminho ao poder e ao comando da resistência à ocupação das terras de Ngola e Matamba. De volta da sua missão, faz sua vingança, reorganizando seu exercito, mas esperando o momento propício. Aclamada Rainha Nzinga vai atirar o sobrinho, recebendo-o alegremente para em seguida apunhalá-lo, deste modo acaba sua vingança. Os adversários portugueses respondem elegendo um chefe mbundu, Aiidi Kiluanji (Kiluanji II), como novo Ngola das terras do Ndongo.A líder Nzinga, não conseguindo um acordo de paz com os portugueses em troca de seu reconhecimento como rainha de Matamba, renega a fé católica e se alia aos guerreiros jagas de Oeste se fazendo iniciar nos ritos da máquina de guerra que constituía o quilombo. Ela une-se a eles casando com um chefe jaga.Aliou-se a guerreiros jagas passando a atuar em quilombos, com espaços e táticas de guerra semelhantes aos utilizados por seu contemporâneo Zumbi dos Palmares em terras brasileiras. Durante a guerra por liderar pessoalmente as suas tropas e proibiu de as suas tropas a tratarem de "Rainha", preferindo que se dirigissem a ela como "Rei". Em 1640, a rainha Nzinga e seus guerreiros atacam o forte Massangano, onde suas duas irmãs, Cambu e Fungi, são aprisionadas, sendo esta última executada. Aproveitando a ocupação temporária de Luanda pelos holandeses, recupera alguns territórios de Ngola com a adesão de alguns sobas (chefes). Salvador Correia de Sá y Benevides, general brasileiro, restaura a soberania portuguesa em Luanda e tenta restabelecer seu poder no interior.Numa incursão do exército de Nzinga são aprisionados dois capuchinhos que a rainha aproveita para convencê-los de sua vontade de reconversão em troca do reconhecimento de sua soberania nos reinos de Ngola e Matamba e da libertação de sua irmã Cambu. O governador geral aceita libertar Cambu se Nzinga retificar um tratado limitando suas reivindicações a Matamba e renunciando aos territórios de Ngola, sendo o rio Lucala escolhido como fronteira. Este tratado, de 1656, só vai ser posto em prática depois da ameaça da rainha voltar à guerra. Só assim o governo de Luanda libera sua irmã Cambu, mesmo assim depois do pagamento de um resgate de mais de uma centena de escravos. Cambu tinha ficado retida em Luanda por cerca de dez anos.Há uma paz relativa no reino de Matamba até a sua morte aos 82 anos em 17 de dezembro de 1663. Sucede a Nzinga sua irmã Cambu, continuadora da memória de sua irmã, a rainha quilombola de Matamba e Angola.Um episódio revela bem essas qualidades: Quando se apresenta como embaixatriz em Luanda, o governador recebe-a numa sala onde havia apenas uma cadeira e uma almofada o governador oferece-lhe a almofada, o que Nzinga recusa por ofender a sua dignidade real e senta-se no corpo ajoelhado de um dos acompanhantes da sua corte, eliminando a posição de inferioridade que sutilmente lhe era oferecida pelo governador. Quando a audiência foi terminada deixa a escrava na mesma posição. Perguntaram-lhe se esquecera a escrava, ela respondeu, que não costumava conduzir a cadeira utilizada em cerimônia de tal importância.
Nefertiti – A rainha do Egito. .
Uma rainha muito importante do período do Novo Egito, que governou no século IX a.C. Nefertite se casou com o faraó Amenhotep IV, que mudou o nome por declarar adoração à Aton - antigo Rá deus Sol, tornando-se Akenaton, ou seja, o rei sol. Akenaton acordava toso dia de manhã e rezava para o sol até ele se por. Ele obrigou todos do Egito a fazerem a mesma coisa, condenando as antigas práticas religiosas, e a todos que ainda permanecessem no politeísmo. O faraó possuía duas esposas, mas Nefertite era a principal, por isso, Akenaton a chamava de sacerdotisa do sol! Um dia, Akenaton faleceu tomando um veneno oferecido por todos os sacerdotes que se opunham a ele e queriam nomear outro faraó. Nefertite ficou com o poder, mantendo assim, toda a paixão pelo deus sol. Todos ficaram revoltados! Perseguiram e mataram Nefertite. Até agora não se sabe se a Nefertite foi assassinada e jogada no rio ou morreu normalmente. A nossa dúvida sobre isso, é porque até agora, não acharam a múmia dela. E assim foi a História de Nefertite!
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
Vocês conhecem Maria da Penha? Falo da mulher ativista que inspirou a criação da lei que recebeu o seu nome. Ela e Maria Dolores de Brito escreveram a oportuna reflexão sobre o caso Eloá:
Feminicídio ao vivo: o que nos clama Eloá
Tudo o que o Brasil acompanhou com pesar no drama de Eloá, em suas cem horas de suplício em cadeia nacional, não pode ser visto apenas como resultado de um ato desesperado de um rapaz desequilibrado por causa de uma intensa ou incontrolada paixão. É uma expressão perversa de um tipo de dominação masculina ainda fortemente cravada na cultura brasileira.
No Brasil, foram os movimentos feministas que iniciaram nos anos de 1970, as denúncias, mobilização e enfrentamento da violência de gênero contra as mulheres que se materializava nos crimes cometidos por homens contra suas parceiras amorosas. Naquele período ainda estava em vigor o instituto da defesa da honra, e desenvolveram- se ações de movimentos feministas e democráticos pela punição aos assassinos de mulheres. A alegação da defesa da honra era então justificativa para muitos crimes contra mulheres, mas no contexto de reorganização social para a conquista da democracia no país e do surgimento de movimentos feministas, este tema vai emergir como questão pública, política, a ser enfrentada pela sociedade por ferir a cidadania e os direitos humanos das mulheres.
O assassinato de Ângela Diniz, em dezembro de 1976, por seu namorado Doca Street, foi o acontecimento desencadeador de uma reação generalizada contra a absolvição do criminoso em primeira instância, sob alegação de que o crime foi uma reação pela defesa "honra". Na verdade, as circunstâncias mostravam um crime bárbaro motivado pela determinação da vítima em acabar com o relacionamento amoroso, e a inconformidade do assassino com este fim. Essa decisão da justiça revoltou parcelas significativas da sociedade cuja pressão levou a um novo julgamento em 1979 que condenou o assassino. Outro crime emblemático foi o assassinato de Eliane de Grammont pelo seu ex-marido Lindomar Castilho em março de 1981. Crimes que motivaram a campanha "quem ama não mata".
Agora, após três décadas, o Brasil assistiu ao vivo, testemunhando, o assassinato de uma adolescente de 15 anos por um ex-namorado inconformado com o fim do relacionamento. Um relacionamento que ele mesmo tomou a iniciativa de acabar por ciúmes, e que Eloá não quis reatar. O assassino, durante 100 horas manteve Eloá e uma amiga em cárcere privado, bateu na vitima, acusou, expôs, coagiu e por fim martirizou o seu corpo com um tiro na virilha, local de representação da identidade sexual, e na cabeça, local de representação da identidade individual. Um crime em que não apenas a vida de um corpo foi assassinada, mas o significado que carrega – o feminino.
Um crime do patriarcado que se sustenta no controle do corpo, da vontade e da capacidade punitiva sobre as mulheres pelos homens. O feminicídio é um crime de ódio, realizado sempre com crueldade, como o "extremo de um continuum de terror anti-feminino" , incluindo várias formas de violência como sofreu Eloá, xingamentos, desconfiança, acusações, agressões físicas, até alcançar o nível da morte pública. O que o seu assassino quis mostrar a todas/os nós? Que como homem tinha o controle do corpo de Eloá e que como homem lhe era superior? Ao perceber Eloá como sujeito autônomo, sentiu-se traído, no que atribuía a ela como mulher (a submissão ao seu desejo), e no que atribuía a si como homem (o poder sobre ela - base de sua virilidade). Assim o feminicídio é um crime de poder, é um crime político. Juridicamente é um crime hediondo, triplamente qualificado: motivo fútil, sem condições de defesa da vítima, premeditado.
Se antes esses crimes aconteciam nas alcovas, nos silêncios das madrugadas, estão agora acontecendo em espaços públicos, shoppings, estabelecimentos comerciais, e agora na mídia. Para Laura Segato [1] é necessário retirar os crimes contra mulheres da classificação de homicídios, nomeando-os de feminicídio e demarcar frente aos meios de comunicação esse universo dos crimes do patriarcado. Esse é o caminho para os estudos e as ações de denúncia e de enfrentamento para as formas de violência de gênero contra as mulheres.
Muita coisa já se avançou no Brasil na direção da garantia dos direitos humanos das mulheres e da equidade de gênero, como a criação das Delegacias de Apoio às Mulheres - DEAMs, que hoje somam 339 no país, o surgimento de 71 casas abrigo, além de inúmeros núcleos e centros de apoio que prestam atendimento e orientação às mulheres vítimas, realizando trabalho de denúncia e conscientizaçã o social para o combate e prevenção dessa violência, além de um trabalho de apoio psicológico e resgate pessoal das vítimas. Também ocorreram mudanças no Código Penal como a retirada do termo "mulher honesta" e a adoção da pena de prisão para agressores de mulheres, em substituição às cestas básicas. A criação da Lei 11.340, a Lei Maria da Penha, para o enfrentamento da violência doméstica contra as mulheres.
Mas, ainda assim, as violências e o feminicídio continuam a acontecer. Vejamos o exemplo do Estado do Ceará: em 2007, 116 mulheres foram vítimas de assassinato no Ceará; em 2006, 135 casos foram registrados; em 2005, 118 mortes e em 2004, mais 105 casos [2]. As mulheres estão num caminho de construção de direitos e de autonomia, mas a instituição do patriarcado continua a persistir como forma de estruturação de sujeitos. É preciso que toda a sociedade se mobilize para desmontar os valores e as práticas que sustentam essa dominação masculina, transformando mentalidades, desmontando as estruturas profundas que persistem no imaginário social apesar das mudanças que já praticamos na realidade cotidiana. O comandante da ação policial de resgate de Eloá declarou que não atirou no agressor por se tratar de "um jovem em crise amorosa", num reconhecimento ao seu sofrer. E o sofrer de Eloá? Por que não foi compreendida empaticamente a sua angústia e sua vontade (e direito) de ser livremente feliz?
Notas:[1] SEGATO, Rita Laura. Que és um feminicídio. Notas para um debateemergente. Serie Antropologia, N. 401. Brasília: UNB, 2006.[2] Dados disponíveis em: http://www.patricia galvao.org. br/apc-aa-patriciagalvao/ home/noticias. ...=1076* Maria Dolores é Socióloga, professora da Universidade Federal do Ceará /Maria da Penha é inspiradora do nome da Lei Federal 11340/2006 e colaboradora de Honra da Coordenadoria de Políticas para Mulheres da Prefeitura de MulheresParceria:
escritorioepa@yahoo.com.br
+ 55 (71) 8726-2825 Gerson Ferreira
Salvador - Bahia - Brasi
.ExternalClass #EC_yiv299115905 .EC_agrupos
{font-size:10px;font-family:'Tahoma,Verdana,Arial';color:#CECFCE;text-decoration:none;}
Feminicídio ao vivo: o que nos clama Eloá
Tudo o que o Brasil acompanhou com pesar no drama de Eloá, em suas cem horas de suplício em cadeia nacional, não pode ser visto apenas como resultado de um ato desesperado de um rapaz desequilibrado por causa de uma intensa ou incontrolada paixão. É uma expressão perversa de um tipo de dominação masculina ainda fortemente cravada na cultura brasileira.
No Brasil, foram os movimentos feministas que iniciaram nos anos de 1970, as denúncias, mobilização e enfrentamento da violência de gênero contra as mulheres que se materializava nos crimes cometidos por homens contra suas parceiras amorosas. Naquele período ainda estava em vigor o instituto da defesa da honra, e desenvolveram- se ações de movimentos feministas e democráticos pela punição aos assassinos de mulheres. A alegação da defesa da honra era então justificativa para muitos crimes contra mulheres, mas no contexto de reorganização social para a conquista da democracia no país e do surgimento de movimentos feministas, este tema vai emergir como questão pública, política, a ser enfrentada pela sociedade por ferir a cidadania e os direitos humanos das mulheres.
O assassinato de Ângela Diniz, em dezembro de 1976, por seu namorado Doca Street, foi o acontecimento desencadeador de uma reação generalizada contra a absolvição do criminoso em primeira instância, sob alegação de que o crime foi uma reação pela defesa "honra". Na verdade, as circunstâncias mostravam um crime bárbaro motivado pela determinação da vítima em acabar com o relacionamento amoroso, e a inconformidade do assassino com este fim. Essa decisão da justiça revoltou parcelas significativas da sociedade cuja pressão levou a um novo julgamento em 1979 que condenou o assassino. Outro crime emblemático foi o assassinato de Eliane de Grammont pelo seu ex-marido Lindomar Castilho em março de 1981. Crimes que motivaram a campanha "quem ama não mata".
Agora, após três décadas, o Brasil assistiu ao vivo, testemunhando, o assassinato de uma adolescente de 15 anos por um ex-namorado inconformado com o fim do relacionamento. Um relacionamento que ele mesmo tomou a iniciativa de acabar por ciúmes, e que Eloá não quis reatar. O assassino, durante 100 horas manteve Eloá e uma amiga em cárcere privado, bateu na vitima, acusou, expôs, coagiu e por fim martirizou o seu corpo com um tiro na virilha, local de representação da identidade sexual, e na cabeça, local de representação da identidade individual. Um crime em que não apenas a vida de um corpo foi assassinada, mas o significado que carrega – o feminino.
Um crime do patriarcado que se sustenta no controle do corpo, da vontade e da capacidade punitiva sobre as mulheres pelos homens. O feminicídio é um crime de ódio, realizado sempre com crueldade, como o "extremo de um continuum de terror anti-feminino" , incluindo várias formas de violência como sofreu Eloá, xingamentos, desconfiança, acusações, agressões físicas, até alcançar o nível da morte pública. O que o seu assassino quis mostrar a todas/os nós? Que como homem tinha o controle do corpo de Eloá e que como homem lhe era superior? Ao perceber Eloá como sujeito autônomo, sentiu-se traído, no que atribuía a ela como mulher (a submissão ao seu desejo), e no que atribuía a si como homem (o poder sobre ela - base de sua virilidade). Assim o feminicídio é um crime de poder, é um crime político. Juridicamente é um crime hediondo, triplamente qualificado: motivo fútil, sem condições de defesa da vítima, premeditado.
Se antes esses crimes aconteciam nas alcovas, nos silêncios das madrugadas, estão agora acontecendo em espaços públicos, shoppings, estabelecimentos comerciais, e agora na mídia. Para Laura Segato [1] é necessário retirar os crimes contra mulheres da classificação de homicídios, nomeando-os de feminicídio e demarcar frente aos meios de comunicação esse universo dos crimes do patriarcado. Esse é o caminho para os estudos e as ações de denúncia e de enfrentamento para as formas de violência de gênero contra as mulheres.
Muita coisa já se avançou no Brasil na direção da garantia dos direitos humanos das mulheres e da equidade de gênero, como a criação das Delegacias de Apoio às Mulheres - DEAMs, que hoje somam 339 no país, o surgimento de 71 casas abrigo, além de inúmeros núcleos e centros de apoio que prestam atendimento e orientação às mulheres vítimas, realizando trabalho de denúncia e conscientizaçã o social para o combate e prevenção dessa violência, além de um trabalho de apoio psicológico e resgate pessoal das vítimas. Também ocorreram mudanças no Código Penal como a retirada do termo "mulher honesta" e a adoção da pena de prisão para agressores de mulheres, em substituição às cestas básicas. A criação da Lei 11.340, a Lei Maria da Penha, para o enfrentamento da violência doméstica contra as mulheres.
Mas, ainda assim, as violências e o feminicídio continuam a acontecer. Vejamos o exemplo do Estado do Ceará: em 2007, 116 mulheres foram vítimas de assassinato no Ceará; em 2006, 135 casos foram registrados; em 2005, 118 mortes e em 2004, mais 105 casos [2]. As mulheres estão num caminho de construção de direitos e de autonomia, mas a instituição do patriarcado continua a persistir como forma de estruturação de sujeitos. É preciso que toda a sociedade se mobilize para desmontar os valores e as práticas que sustentam essa dominação masculina, transformando mentalidades, desmontando as estruturas profundas que persistem no imaginário social apesar das mudanças que já praticamos na realidade cotidiana. O comandante da ação policial de resgate de Eloá declarou que não atirou no agressor por se tratar de "um jovem em crise amorosa", num reconhecimento ao seu sofrer. E o sofrer de Eloá? Por que não foi compreendida empaticamente a sua angústia e sua vontade (e direito) de ser livremente feliz?
Notas:[1] SEGATO, Rita Laura. Que és um feminicídio. Notas para um debateemergente. Serie Antropologia, N. 401. Brasília: UNB, 2006.[2] Dados disponíveis em: http://www.patricia galvao.org. br/apc-aa-patriciagalvao/ home/noticias. ...=1076* Maria Dolores é Socióloga, professora da Universidade Federal do Ceará /Maria da Penha é inspiradora do nome da Lei Federal 11340/2006 e colaboradora de Honra da Coordenadoria de Políticas para Mulheres da Prefeitura de MulheresParceria:
escritorioepa@yahoo.com.br
+ 55 (71) 8726-2825 Gerson Ferreira
Salvador - Bahia - Brasi
.ExternalClass #EC_yiv299115905 .EC_agrupos
{font-size:10px;font-family:'Tahoma,Verdana,Arial';color:#CECFCE;text-decoration:none;}
Assinar:
Postagens (Atom)